O quarto só teria atenção numa reprodução de Van Gogh. Era amplo consideradas todas as acomodações humanos possíveis, mas apertado pra própria pequenez. Considero apropriado mencionar as passagens secretas, tão logo encontre onde bater as cinzas e com o que afixar os pregos, e que a vizinha não nos ouça. Hoje, terça feira, fiz com que amanhecesse um sábado de sol e retirei a poeira que nos recobria as folhas, chovendo feito nuvem sobre o carro estacionado e a vizinha falou, falou e falou e eu falei também, dentro de casa, por preguiça só já que por essas bandas, por mais que se trepe, sempre tem há quem falta e tomar no cu é iguaria fina, para os que conhecem o próprio gosto e se comprazem com os sábados, de que criação sejam. E oferecer sobremesa pra quem tá de dieta é sacanagem. Eu gosto de tomar no cu. Quando acontece, é. Tomar no cu é bom dia! Mas no escasso se encontra a afronta. Nem vai para lado algum. Eu fico aqui, no meu sábado de sol.
As plantas novamente ditam um novo sentido do brotar das coisas. Uma nova nesga de luz, o vislumbre de um instante além deste por onde seguimos ao longo de nossas eternidades. Os gritos dos vizinhos dão à dimensão do ordinário das coisas. As sirenes e as buzinas buscando que secreto, que esconderijo de mim. Passam perto, mas se vão, apresadas e barulhentas o bastante para se darem conta dos meus crimes silenciosos e dos meus acidentes fatais. Como aquele em que fiquei ali parada, o sujo de sorvete no canto na boca, as remelas e marcas do dentifrício: o glamour do cotidiano fudido de quem já nasceu com selo de fudido. Comer e comer, uma coisa pela outra, outra por uma, no fim, uma coisa só. Que nem viajar. Meu pensamento entra em ebulição em altas temperaturas, por isso pouco resta, a maior parte derrete, se evapora. Que segurança pode haver em um caminho tarjado de preto? Como as ondas... esta que me leva mansa pela superfície das coisas. E que inspiração há na mesmice da promiscuidade primeira que é respirar? As vezes ainda me pego de rabo de olho, olhando se deus vem vindo de inferno na mão, tomar tudo no cu, ser feliz até que deu e me deixem em paz, amém. E tendo me sentado ao colo de deus para chama-lo de velho babão, pais também dispensei todos, e também os vizinhos, aqueles que nos pagavam balas e nos carregavam pra casa, sabendo ou não, putinhas. E nem por isso quis que pai lhe comesse: tinha nojo de seus dentes postiços, cheiro de óleo queimado com vidros de perfumes fortes e variados sobrepostos: nauseabundo! Não me comeu. Não por ser eu a boa moça, tô cagando pra família, não comeu porque sabia que não dava conta. A cura do mal é sexo, sorvete de chocolate e maconha, não importa a ordem. E, por via das duvidas, alguns comprimidos. Os dentes, na missão de morder, cenouras é o que existe à mão. Suculenta e tenra cenoura, doce desafio para as minhas mandíbulas. Enquanto se atarefam os dentes descansam os lábios de seus infindáveis suspiros, um emendadinho no outro. Também soube uma receita com cenoura para hidratar jonfa velha. Nem precisei, gosto do novo. Eu quero um amor jeitadinho, feinho não porque sou fútil: gosto de homens bonitos. Mas cadê um feio? Beleza tem pra todo mundo, cada um com a sua. A chama que queima meus cabelos e meu interior. Amornado na falta de tato do galante mancebo: resta o isqueiro e meu cigarro. O fogo, só o que me derrete a traquéia, escorrendo lava vertida sangue. O sangue escorrido de ti, mastigado por minha buceta, sempre dócil e mansa, ou pela vontade de se deixar devorar. Como o todo errado, errado no falar, errado no andar, no se vestir, errado em ser. Certinho ele cabia em si em seus transbordamentos cachoeirentos que eram Tabuleiros, com forma de coração. No caminho, as formigas, odiava as formigas, especialmente as minúsculas e, no entanto, também sei que o cu de qualquer uma delas é mais importante do que essa merda que eu faço, como já dizia meu tio avô.
2 comentários:
O título do seu texto já me deixou curioso e com o desenrolar da narrativa fui percebendo quantas imagens vc nos envolve. É vibrante, sutil e ao mesmo tempo cru. é um dia de sábadpo e sol um dia comum que fa petiza. valeu, ótimo texto
me achei e me perdi na sua confusão!
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