quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Começou no finzinho da noite anterior. Ares noturnos e a quentura de Apolo, ou só meu corpo e as amoreiras ardem nas madrugadas? Não dura a delicadeza com que espreguiça a sua luz, que  chega afoita com suas cores de recomeço. O que muda nos dias são seus nomes e a chuva. E o que eu quero é um só hoje, sem o peso de todo dia. Quero um outro dia novo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

E tudo o que dificulta a vida é também o que a salva da mediocridade e do vazio. Como essa crença na possibilidade do impossível. O mundo em que estava era o contrário do que parecia real, mas se deixou ficar, conhecendo os habitantes do lugar. Loucos, como todos os que habitam os mundos às avessas. Alguns pedem respostas pelo e descrevem em minúcias, ditas e omitidas, as paisagens possíveis às janelas de ônibus. Diários de bordo. As caixas pretas que permitem o entendimento das catástrofes mas que não as podem evitar.

sábado, 13 de agosto de 2011

Rede de apanhar borboletas

O quarto só teria atenção numa reprodução de Van Gogh. Era amplo consideradas todas as acomodações humanos possíveis, mas apertado pra própria pequenez. Considero apropriado mencionar as passagens secretas, tão logo encontre onde bater as cinzas e com o que afixar os pregos, e que a vizinha não nos ouça. Hoje, terça feira, fiz com que amanhecesse um sábado de sol e retirei a poeira que nos recobria as folhas, chovendo feito nuvem sobre o carro estacionado e a vizinha falou, falou e falou e eu falei também, dentro de casa, por preguiça só já que por essas bandas, por mais que se trepe, sempre tem há quem falta e tomar no cu é iguaria fina, para os que conhecem o próprio gosto e se comprazem com os sábados, de que criação sejam. E oferecer sobremesa pra quem tá de dieta é sacanagem. Eu gosto de tomar no cu. Quando acontece, é. Tomar no cu é bom dia! Mas no escasso se encontra a afronta. Nem vai para lado algum. Eu fico aqui, no meu sábado de sol.
As plantas novamente ditam um novo sentido do brotar das coisas. Uma nova nesga de luz, o vislumbre de um instante além deste por onde seguimos ao longo de nossas eternidades. Os gritos dos vizinhos dão à dimensão do ordinário das coisas. As sirenes e as buzinas buscando que secreto, que esconderijo de mim. Passam perto, mas se vão, apresadas e barulhentas o bastante para se darem conta dos meus crimes silenciosos e dos meus acidentes fatais. Como aquele em que fiquei ali parada, o sujo de sorvete no canto na boca, as remelas e marcas do dentifrício: o glamour do cotidiano fudido de quem já nasceu com selo de fudido. Comer e comer, uma coisa pela outra, outra por uma, no fim, uma coisa só. Que nem viajar. Meu pensamento entra em ebulição em altas temperaturas, por isso pouco resta, a maior parte derrete, se evapora. Que segurança pode haver em um caminho tarjado de preto? Como as ondas... esta que me leva mansa pela superfície das coisas. E que inspiração há na mesmice da promiscuidade primeira que é respirar? As vezes ainda me pego de rabo de olho, olhando se deus vem vindo de inferno na mão, tomar tudo no cu, ser feliz até que deu e me deixem em paz, amém. E tendo me sentado ao colo de deus para chama-lo de velho babão, pais também dispensei todos, e também os vizinhos, aqueles que nos pagavam balas e nos carregavam pra casa, sabendo ou não, putinhas. E nem por isso quis que pai lhe comesse: tinha nojo de seus dentes postiços, cheiro de óleo queimado com vidros de perfumes fortes e variados sobrepostos: nauseabundo! Não me comeu. Não por ser eu a boa moça, tô cagando pra família, não comeu porque sabia que não dava conta. A cura do mal é sexo, sorvete de chocolate e maconha, não importa a ordem. E, por via das duvidas, alguns comprimidos. Os dentes, na missão de morder, cenouras é o que existe à mão. Suculenta e tenra cenoura, doce desafio para as minhas mandíbulas. Enquanto se atarefam os dentes descansam os lábios de seus infindáveis suspiros, um emendadinho no outro. Também soube uma receita com cenoura para hidratar jonfa velha. Nem precisei, gosto do novo. Eu quero um amor jeitadinho, feinho não porque sou fútil: gosto de homens bonitos. Mas cadê um feio? Beleza tem pra todo mundo, cada um com a sua. A chama que queima meus cabelos e meu interior. Amornado na falta de tato do galante mancebo: resta o isqueiro e meu cigarro. O fogo, só o que me derrete a traquéia, escorrendo lava vertida sangue. O sangue escorrido de ti, mastigado por minha buceta, sempre dócil e mansa, ou pela vontade de se deixar devorar. Como o todo errado, errado no falar, errado no andar, no se vestir, errado em ser. Certinho ele cabia em si em seus transbordamentos cachoeirentos que eram Tabuleiros, com forma de coração. No caminho, as formigas, odiava as formigas, especialmente as minúsculas e, no entanto, também sei que o cu de qualquer uma delas é mais importante do que essa merda que eu faço, como já dizia meu tio avô. 

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Terapeutica minimalista



Alivio comprimido.

domingo, 13 de junho de 2010


São as passagens sabidas de cor que se deve buscar quando a porta frágil se quebra sob a decisão do acaso e oscila, bamba. É a escrita sempre à mercê dos instrumentos.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Doidimai

E da loucura elejo a festa. A que faz do dia 02 de maio o dia mais doido do ano.

sexta-feira, 14 de maio de 2010



Tinha habilidade com o recombinamento das coisas. Cores, peças, épocas, já que algumas vinham das avós e das tias, reconciliadas através das amigas, que levavam a memória dos objetos que davam forma à fumaça daquele cigarro. Muito havia se passado desde o primeiro encontro. Lembraria sempre do cachecol e do medo dos vampiros. Depois, vieram os colares e, em suas contas, os contos, desabafos de amores que ouvia da avó e que minavam dos olhos por ter aquele sorriso, doce, grato. Tentava sorrir assim também, pura sem-graceza. Sabíamos o que nos fazia diferentes e todos os encontros eram cheios de acontecimentos, desde o ferro, usado com brasas, o plástico bolha e, os brincos, nunca tirados, íntimos, desde o primeiro dia. E a irmã. Sua primeira filha que, segundo a mãe, era do pai. Um bom motivo para que todos os de sua família fossem assim, crentes. Todos os seus irmãos e filhas. Menos o eu, por ser filha dela e, a cada enrugar e a cada cicatriz, comprovar que evitar acidentes é possível. E do valioso que é a última rua e o cemitério. Pra poder namorar.

domingo, 25 de abril de 2010


Seguimos por ti e sobre a canoa. À frente iam meus irmãos, eretos, dando força ao movimento que vinha das mãos que se deixavam deslizar por sua superfície naquele contato último de um sentir, anfíbia que era, o cordão a ser cortado, não mais respirar em ti. Acordavam as coisas que ainda dormiam, as barracas, as aves, os pescadores. Muito quente era quando despertou, surpreendida pela noite com lua afiada, cortando com a timidez as nuvens que lhe serviam de concha. E numa tarde seca, nuvens foram flexa, foice, machado e espada, cercando o avião, augurando boas idas e vindas. E é quando cada ferramenta encontra a mão de seu dono que todos se voltam ao mar. Recebendo chão e patrão para criar a carne que comem, se não puderem ir ao mercado. Limpam as vísceras para o sarapatel e pelo nariz entra a mão bruta do seu cheiro, apertando o estomago e o trazendo à garganta, conta, jóia usada em festa, adorno moribundo, digerindo o mundo.

Ate o Fim - Chico Buarque e Ney Matogrosso

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

nêga


Negras sempre fomos, como todo homem, que por ser homem, veio da África. E mais ainda por ser mulher. E a nós é pedida a macheza necessária de se ter uma bunda e andar com ela por aí, nas igrejas, nos supermercados, nas escolas, nas rodas. Porque as negras, desde meninas, tem se destinado a saciar fomes que não suas. Dos parentes e dos patrões. O riso ambíguo poderia ser um sinal de nervosismo, de tensão, ou poderia ser mesmo um riso, um deboche diante de toda a merda em que todos eles se convertem, principalmente sobre os altares em que sobem declarando publicamente que um dia irão mentir e trair. Não a traição que conheceram com a posse, o alicerce da pátria, da família e da propriedade e que eu tão somente chamo de infidelidade, independente de partido ou desejo. Cometerão a traição que é anterior ao nome de Judas, que fez jus ao livre arbítrio e não a cometeu: a traição da própria liberdade, da liberdade de trair. Porque nada se deveria esperar do que ainda não está pronto e que se faz como tudo, no decorrer das coisas e dos afetos. Ou também poderia ser o gosto do amor das novelas, parecido com emulsão de Scott e sola de chinelo. Ao lado de uma colher enorme há sempre um chinelo. E me dizem sorrindo para que eu engula sem fazer cara feia, mesmo que vomite depois. E porque foi inventado o amor, também se tornou necessário amar os cães. Eles permitem que acreditemos em nossa capacidade de amar. E por ser frágil a capacidade de amor dos homens, em sua maioria, não confiam em gatos. São traiçoeiros, dizem. Digo eu que não conheço dos gatos nada além do que um misto de preguiça e tédio que sinto diante da TV e que me leva a espreguiçar alongando a necessidade de conforto na luxúria que vem se deitar comigo todas as madrugadas, vendo ou não a lua. E da fogueira, a que espera por toda mulher que se preste a conviver com gatos. Um jardim! Mesmo em janela, ou nas páginas de um livro, um jardim me faria feliz se eu fosse gato. Nada seria necessário além de água, um lugar confortável, telhados e o vaso com a erva que é a minha amiga e legal. Sexo, comida e diversão sempre há. Os homens consideram os gatos traiçoeiros porque eles não se traem. Era chato. Barulhento, se mijava todo e no pé da gente de tanta excitação por uma impossibilidade de amor. E todos os dias eram assim, enquanto vivesse. Naquela hora ele lhe demonstraria com a urina a sua dependência. Qual era a coleira, a corrente que os haviam unido? Não a via, embora sentisse o seu peso sobre o peito, como as rédeas dos louros, cavalos prisioneiros da investigação humana e do seu desejo de amar e proteger os bichos. Sinto-me culpada porque também os amo e a eles dei cenouras e trancei em suas crinas a minha vontade de liberdade e de vento. Eu, os cavalos e os cães. Folhas se soltando de diferentes troncos e se entrosando no chão, onde tudo se encontra para acolher o que for de brotar, a vida que sempre nasce, mesmo quando já estamos mortos. Às vezes ainda ouço a dor do cão, morto pelas minhas mãos. Teria sido mais fácil amá-lo vivo? Porque estando morto, conservo o último momento, o descontrole do afeto, desse desejo de ser mais que gota, gota com seu gosto. E nunca mais deixei de enxergar a fragilidade de tudo diante do meu desejo de dar amor. Porque o amor da gente devora o outro. Felina, sou mulher. E negra. E por isso, minha carne veio barato, somente à custa de humilhações e agravos acumulados durante os séculos, mas nada que impedisse um negro, que me instruía na sabedoria dos negros, de dizer: que delícia, assim até eu vou querer um pedaço. E pergunto: pedaço do que? Da ofensa ou da decepção? E em alguns momentos os homens se tornam cegos, não podem nos ver. Perdidos que são na construção de uma mulher feita por cosméticos e dietas, não poderiam lidar com uma mulher que caminha livremente, sem mão de dono que a conduza e que, mesmo em sua timidez de carne entre famintos, não se preserva nas páginas das folhinhas e delas não segue receitas, nem de bons modos, nem de bolo e nem de sexo. E se nos homens brancos ainda existe o olhar de sinhozinho, nos homens negros ainda há o arroubo do reprodutor e a ele também se deve agradecer por não faltarem braços e meninas ao patrão da vez. E por isso sigo incompleta, porque desejo um homem que seja capaz de me comer inteira e não aos pedaços. A minha bunda é só uma parte de um corpo que é só uma parte de mim. A parte com prazo de validade. E isso já seria motivo mais que suficiente para que eu não faça reservas e me deixe devorar sem restrições. A todos que têm fome de mim, me dou, aos que têm paladar e estômago para conhecer meu gosto, pertenço. Comer todos podem. Digerir, só alguns. Minha doçura é veneno e o que em mim foi sustento intoxica quem com a boca me feriu. Carne de peixe e cobra que poucos conseguem comer e gozar em seu gosto porque o gosto das coisas é muito além do que foi imaginado. E de mim não dou pedaço a ninguém e quem tem direito não pede, só toca, desfazendo o intransponível de mim, o que não mais existe mais. E nem mim existe. Nem eu. Só o que há é o respirar das coisas, o arfar do gato, dormindo por três dias, depois de quatro sem que dele se tivesse notícia além de que a Lua se mostrava inteira. O sono profundo após noites seguidas existindo. Sendo, os gatos têm muito mais do que sete vidas. E que pedaço de um gato seria pedido por quem o desejasse? Eu quero o pedaço da leveza e com ele transitar pelo ordinário das coisas sem sofrer por não ter a surpresa de que hoje não sejam melhores do que foram ontem. Mas tudo só é o que sua espécie e seus sonhos lhe permitem ser. Os homens são os homens e os limites dos homens são os limites dos homens e, se não pode ser ofensa o desejo do homem, ofensa é sua fraqueza, a sua digestão delicada da realidade da vida. E se o comum de tudo não é motivo para que ninguém se ofenda, por que ofenderiam ao deus masculino os pecados das mulheres? O pecado de não se saciarem apenas com um pênis e que delas, seu filho homem, tivesse conhecido a entrega. A mim encantam os pênis. Mas nenhum conheci rijo e vigoroso o suficiente para que meu mundo se alicerçasse sobre ele. Não podem suster a si mesmos sozinhos e para sua glória surge a indústria com os produtos de carne e osso. E venderiam suas filhas por este prazer. Decotes e fendas, chicotes e máscaras, o sorrateiro e todas as sombras que lhes impeçam olhar atentamente e reconhecer, no mesmo rosto de mulher, as três tecelãs, a puta, a mãe e a santa, a que só passou a existir por que as puta também parem e seus filhos tendem a ser governantes. E necessitam dos entretenimentos eróticos, corpos femininos, imagens e tudo o que lhes possibilite a contemplação do falo por que, no dia-a-dia, nenhum deles sustentaria um dizer, em força e virilidade, ao lado de uma mulher. Todos se mostram, inevitavelmente, sem máscaras, com seus 12 anos, talvez ainda por completar. Precisam pular aqui e ali, se afirmar, se impor e, pra isso, precisam de muito, em muitas, para que não se confrontem com o tão pouco que têm a oferecer. Não sou feminista e também concluo que meu melhor movimento é sem dúvida o de quadril, por que o que sou é mulher, um desejo sem destino certo, mas com a intensidade de toda força que é criadora, e me derreto inteira pela poesia dos cafajestes. E movendo o quadril, os atinjo com o pé e digo que só o que existe é o ainda não inventado. O resto se torna os próprios homens. E por isso crio e recrio. E dos modelos poucos se conservam inteiros, todos muito frágeis como seus pênis, testículos e imaginação. E só por ser mulher posso ser lagoa e os recebo, aberta. Os acolho e me deixo penetrar por seus pedaços com que procuro construir um homem inteiro, a espera de admirar sua força e seu caráter. E creia, não sou má e verdadeiramente sinto e lamento que pelo vislumbre de limite, pela forma do corpo não contenham seu desejo e se afoguem, ainda no raso de mim. Cachorro que engole osso... E nade quem sabe a procura de saída porque o mundo habitado pelos homens se torna cada vez menor.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Entorpecimento literário

Como todas as outras substâncias, ajuda a ver de outra forma. E quando nos relacionamos assim com as coisas e pessoas nos tornamos donos do que a gente tem.

domingo, 11 de outubro de 2009

Sempre foi estranha e por isso a chamavam Sissy. Nunca soube ao certo dos detalhes de como tinha acontecido por medo, por que tendia aos pesadelos e buscava sonhos, o que a tornava ainda mais estranha e assustadora. Criança de quarta-feira, cheia de aflição e sorrindo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Todas as vezes que ia ao banheiro se lembrava de quem era. E às vezes se sentava, em qualquer lugar, e pensava nas coisas até que o cachorro latisse. Mais cedo ou mais tarde o calor faria com que saísse. Havia o cheiro e o espelho. Trocaria os pelos por escamas e de novo era o que foi, ali, naquele lugar.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Rebeldia

Recuso-me aos sacrifícios.

Só ao que desejo pertence meu sangue e meu calor.

Sou ovelha, mas sou negra.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Ansiedade

para Stela

O caminho de alguns, dos que, na tentativa de fugir da morte, pegam atalho.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Folhas se soltando, muitas orelhas e manchas, muitas manchas. De tinta, de sujeira, do tempo passando. A poeira que encobre as coisas mas que também faz espirrar. E é pra isso que servem os descongestionantes, para que se possa fumar, dizer e apaixonar. Ao cansaço. Por quantos de nós cada um é? A força que infla o peito faz lembrar o atleticano de dois anos, que nem pombo, galo sote e zingador! No canto e no grito, tudo o que se é.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Dormiu pouco na noite anterior e já conhecia a sensação que se acentuava, mais desejosa a cada dia, à espera dos acontecimentos. Naquele dia o tempo estava bom, um calor gostoso mas que pouco valeu por conta do amuamento. Não havia dito nada. Movia-se, no mesmo princípio do dia em que completava as voltas que ainda daria, caso o planeta se acabasse num feriado. E naquele lugar, nos feriados, nada abria. Esperava que alguma coisa fosse dita logo cedo, que é melhor, pensava. Mas é diante da experiência que a linguagem se constrói, para os homens. Os seres de silêncio se conjugam em todos os tempos.

domingo, 12 de julho de 2009

Em algumas manhãs, todo o sentido da vida era molhar terra e sementes e receber o afago do gato, testemunha do mesmo milagre, não manchado pela intenção ou pela necessidade de se explicar. O mesmo gato que agora ouve um discurso sobre a importância de que tratamentos alopáticos não sejam interrompidos e sobre a eficiência de analgésicos e antibióticos. Por ter recebido afago sentia o peso de um amor que lhe abriria à força a boca, a despeito do vômito e da revolta, fazendo descer pela garganta o comprimido.

Violação de direitos

Sim, agora me detenho mais ao significado de ‘direito autoral’, ou ‘intelectual’, como dito em uma notificação. E penso que, para esses seres virtuais que somos, nada disso existe. O entendido de alguns pedaços desse mundo particular que é de todos, às 08h49min a.m, 12 de julho, de 2009, em que, ainda, o que torna possível e compreensível um sou, um poder ser, é o outro, o que, naquele momento ali estava dito, em 1987 e no antes. A inteligência é pedra em que as intelectualidades tropeçam e é na lei que não se infrinje que existe o tombo. E quem será responsabilizado pelas infrações ao nosso direito de sentir? Alguns mudos só o são por serem surdos.

video

Voz: Nina Simone

Animação: Peter Lord

A luz oscila. Ainda a mesma das lamparinas, o cheiro fresco da noite e a maresia dos livros. A pele muda, ganha viço de cor retocada, essa arte de colorir. Assim foi feita. Afugentando sonhos e pesadelos. E de palavras.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Se havia coisa que irritava era a maldita piedade. O homem a havia chamado de puta, ofendido com a sinceridade. Não porque havia o chamado de idiota, consciente da obrigação que era amar os idiotas, mas por admitir que seu pinto é insuficiente. E o amor não pode ser nada além do que compaixão e tristeza, como o homem bêbado, alucinado e entregue à poesia fácil de qualquer prazer. Havia ali, como as colônias que se formavam sobre a pele, os pequenos seres disfarçados de pintas e que, ao final, se mostravam brancos e gordos, alimentados. Os pelos dos olhos e do nariz arrepiados de repugnância, a pressa da morte e de seus convivas, tomando assento para a refeição, enquanto o corpo ainda saltita, sem cabeça. Sabia que doía. E achava justo que assim fosse. Só por nojo eles se limpam e adiam a decomposição do que os guarda e atribuem lugares e maneiras às coisas de dentro e de fora. Amava porque ele se sentava nas pálpebras e balançava as pernas, apontando as insignificâncias de cada um. Porque não tinha escolha e gostava de respirar, esse ar de fumaça. Sabia que doía, mas o espremeria. Para que estivesse inteiro.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Desorganização

Era o que disfarçavam as gavetas cuidadosamente limpas e arrumadas. As peças separadas por cores e circunstâncias. Cheirava bem.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Ausência de uma bóia

Porque se digo é com minha própria voz e minha fala é assim mesmo, estabanada e desajeitada. No fim só restará lembrança é dos braços, tanto que gesticulavam. Parecia afogamento.

A expectativa da morte. A de sempre. A de todo o tempo. O procedimento era banal, como ela, além de certa. E só por isso se preocupava um pouco. Sabia que não seria nada. Iria viver. Mas a dúvida nasce com a angústia do derradeiro e embaralha o juízo. No fundo sabia que não iria viver. Seria nada.

E noite digo. E embora sinta possível o feliz, como medicamento ao alcance da mão e, mais do que o fim, começo, com ele não sacio minha insatisfação. Certa noite ela veio, para buscar. Fez pirraça, demorando tanto... encontraria o caminho sozinha. Não quis ir? Pois que fosse, e se o querer mudasse de idéia, que voltasse. Mas ainda são necessárias essas paisagens de pobreza para que sejam cultivadas as farturas e não tornei a ver-lhes a sombra. Sobre os olhos ficou a poeira da rua, como fotografia, guardada no álbum de memórias em que se transformou todo o resto. E de novo o cão morria pelas mãos de quem o amava. E não poderia dizer já que a isso se dedicam os loucos e os que se calam. Imensurável é a liberdade da solidão e o monólogo da sua afirmação, escapado na tentativa de outro. E algumas vezes ela vem, feito cão magro, lambendo a mão com a lembrança de enxotar, ainda assim, ainda não. Restaria um destino de nome a cumprir e, por ser grama, não saberia ser junto ao que é suposição além de si. Toda a verdade que sabia era a da chuva, do sol e da vontade de brotar.

Os desejos permanecem por sua ausência e das impossíveis alegrias surge a de reconhecer rostos e rotas. Só saía do quarto depois de morta, enquanto cultivava paixões por personagens, o cavaleiro solitário, homem deprimido ao constatar a ansiedade dos de sua espécie em matar mais rápido e em maior quantidade. Só depois escreveriam mais rápido. E por amor digo que de nada serve à escrita a velocidade. Lenta e vagarosa, se destina ao depois de um já sido, acontece quando é tarde demais. Alinhavo de rupturas e esgarçamentos. E se escrevo é só por ter mãos e por, das coisas feitas pelos homens, sempre buscar as marginais. E amaldiçoados são todos os poetas porque no começo era a vogal, o grunhido, o susto em dizer. E em mim chuva sempre foi verbo. E sonho. E delírio.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Alimento dentro da cuia e com flor

Reação a que os corpos estão expostos, pelo contato com outros corpos, da mesma e das mais variadas espécies. Sim, como as gripes. Pneumonias, alergias, histerias, orgasmos, deslumbramentos. A busca pelas alturas dos abismos e olhar para o fundo das coisas. Os que estão sob contágio apresentam um padrão hormonal e psíquico mas com reações das mais diversas. Como as causas. Muito já foi inventariado e catalogado, e ainda será por ser o individuo mais novo o extremo da potencialidade de sua espécie. Fortalece se saber fraco frente ao outro. Pulsar descompassado buscando ritmo de vida que suspire, espreguice e sinta a força de brotar que é o abraço amoroso do sol. É o que faz pensamento buscar explicação porque a tudo se complica se difícil já é a opção de se cumprir. É engolir o outro, ruminar o outro, vomitar o eu e, junto, a ilusão. A desilusão é presente como casulo rompido. A paz do mandruvá.

sábado, 13 de junho de 2009

E o que mais senão o já conhecido e vivido poderia ser tão forte e me tirar do em que me agarro e me mantenho atada como sina e profecia? E dos oráculos, nenhum teve ainda a potência de uma voz infantil que disse, quero esse. Esse não pode? Fico sem nenhum porque não quero o que não quer o meu querer. E assim é. O desejo da voz. Aquela cansada e que se oferece em sacrifício e oferenda. A que escorre como vida, dor e veneno, remédio e cura. A que empurra de barranco em meio à chuva que a tudo dissolve e faz de todos terra de ser coisa. A voz que torna o ouvido rio livre de represas, que corre e leva em sua força o desejo de mais. E de mar. A voz que me livra de mim e do que fui. A voz que me faz sincera e aberta ao amor e ao abandono e, de ambos, ciente da dimensão e do limite.

E inevitável como o fim é o otimismo que me enfastia. O mundo seria um lugar melhor. Sinto palpitarem em mim as bem-aventuranças. Cada homem seria livre e sua descendência seu sonho e seu erro. E o último de nós resgatará o primeiro.

Até amanhã

Não havia reparado antes. Em suas despedias noturnas se comprometia com a vida.

Como nos gatos, o desejo, se despertado, não conhece pudor ou arrependimento. E nem morte o deteria. Nasceu e para isso vivia. Dormia melhor.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Entre os sentidos de broxar

na dúvida, não prossiga.