A luz oscila. Ainda a mesma das lamparinas, o cheiro fresco da noite e a maresia dos livros. A pele muda, ganha viço de cor retocada, essa arte de colorir. Assim foi feita. Afugentando sonhos e pesadelos. E de palavras.
domingo, 12 de julho de 2009
segunda-feira, 6 de julho de 2009
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Desorganização
Era o que disfarçavam as gavetas cuidadosamente limpas e arrumadas. As peças separadas por cores e circunstâncias. Cheirava bem.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Ausência de uma bóia
Porque se digo é com minha própria voz e minha fala é assim mesmo, estabanada e desajeitada. No fim só restará lembrança é dos braços, tanto que gesticulavam. Parecia afogamento.
E noite digo. E embora sinta possível o feliz, como medicamento ao alcance da mão e, mais do que o fim, começo, com ele não sacio minha insatisfação. Certa noite ela veio, para buscar. Fez pirraça, demorando tanto... encontraria o caminho sozinha. Não quis ir? Pois que fosse, e se o querer mudasse de idéia, que voltasse. Mas ainda são necessárias essas paisagens de pobreza para que sejam cultivadas as farturas e não tornei a ver-lhes a sombra. Sobre os olhos ficou a poeira da rua, como fotografia, guardada no álbum de memórias em que se transformou todo o resto. E de novo o cão morria pelas mãos de quem o amava. E não poderia dizer já que a isso se dedicam os loucos e os que se calam. Imensurável é a liberdade da solidão e o monólogo da sua afirmação, escapado na tentativa de outro. E algumas vezes ela vem, feito cão magro, lambendo a mão com a lembrança de enxotar, ainda assim, ainda não. Restaria um destino de nome a cumprir e, por ser grama, não saberia ser junto ao que é suposição além de si. Toda a verdade que sabia era a da chuva, do sol e da vontade de brotar.
Os desejos permanecem por sua ausência e das impossíveis alegrias surge a de reconhecer rostos e rotas. Só saía do quarto depois de morta, enquanto cultivava paixões por personagens, o cavaleiro solitário, homem deprimido ao constatar a ansiedade dos de sua espécie em matar mais rápido e em maior quantidade. Só depois escreveriam mais rápido. E por amor digo que de nada serve à escrita a velocidade. Lenta e vagarosa, se destina ao depois de um já sido, acontece quando é tarde demais. Alinhavo de rupturas e esgarçamentos. E se escrevo é só por ter mãos e por, das coisas feitas pelos homens, sempre buscar as marginais. E amaldiçoados são todos os poetas porque no começo era a vogal, o grunhido, o susto em dizer. E em mim chuva sempre foi verbo. E sonho. E delírio.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Alimento dentro da cuia e com flor
Reação a que os corpos estão expostos, pelo contato com outros corpos, da mesma e das mais variadas espécies. Sim, como as gripes. Pneumonias, alergias, histerias, orgasmos, deslumbramentos. A busca pelas alturas dos abismos e olhar para o fundo das coisas. Os que estão sob contágio apresentam um padrão hormonal e psíquico mas com reações das mais diversas. Como as causas. Muito já foi inventariado e catalogado, e ainda será por ser o individuo mais novo o extremo da potencialidade de sua espécie. Fortalece se saber fraco frente ao outro. Pulsar descompassado buscando ritmo de vida que suspire, espreguice e sinta a força de brotar que é o abraço amoroso do sol. É o que faz pensamento buscar explicação porque a tudo se complica se difícil já é a opção de se cumprir. É engolir o outro, ruminar o outro, vomitar o eu e, junto, a ilusão. A desilusão é presente como casulo rompido. A paz do mandruvá.
sábado, 13 de junho de 2009
E o que mais senão o já conhecido e vivido poderia ser tão forte e me tirar do em que me agarro e me mantenho atada como sina e profecia? E dos oráculos, nenhum teve ainda a potência de uma voz infantil que disse, quero esse. Esse não pode? Fico sem nenhum porque não quero o que não quer o meu querer. E assim é. O desejo da voz. Aquela cansada e que se oferece em sacrifício e oferenda. A que escorre como vida, dor e veneno, remédio e cura. A que empurra de barranco em meio à chuva que a tudo dissolve e faz de todos terra de ser coisa. A voz que torna o ouvido rio livre de represas, que corre e leva em sua força o desejo de mais. E de mar. A voz que me livra de mim e do que fui. A voz que me faz sincera e aberta ao amor e ao abandono e, de ambos, ciente da dimensão e do limite.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Boa Noite
O encontro com a morte havia sido anfitrionado pelos marimbondos, caçador ou cavalo.
Chegaria na terceira ferroada.
Ou na fumaça que salva.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Lápis
Que tipo de ser é esse que não se consome duas vezes como tudo o que se planta? Caneta escorre. Lápis volatiza.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
E se é assim, que seja. Até que se encerre o ciclo. E me lembro do que em suas máscaras não gosto, algumas brilham demais, outras sorriem demais e tantas são bobas demais. Fica sempre ao lado o bom amigo clichê. O único que cumpre a promessa e nos acompanha, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Eu, tão habituada ao silêncio que falo. E quando me apiedo dos seus ouvidos, grito. E muito tenho gritado com meus silêncios e, embora tanto queira, nada peço, de tanto que já tenho disputando os olhos e a vontade. E os ouvidos. E a pele. Gostos e cheiros. Porque aprendi a agonia de meu pai ao ser ignorado: O pior que tem é chamar pessoa e ela não responder, tá me ouvindo? Ouvi. E não pediria que fizesse minhas vontades conforme as suas e nem que ficasse ou me fizesse feliz, o que sei ser com hormônios e pensamentos. Falta o discernimento de que acontecimentos felizes são os que acontecem, infelizes todos podem ser, mesmo os pobres e os sem vaidade e feliz não é o que vem de você, mas o que me atinge quando estou ao seu lado. Esse lugar. Nenhum outro pode ser alcançado além do que se ponha o pé. E o corpo, prestes ao florir.
E ainda faltaria dizer que não há arrependimento. O peso nos músculos é pelo cansaço de viver ao prestes do eu. Não seria possível desver e o visto já era
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Pequeno tratado sobre os olhos
E tudo o que resta é a loucura. Porque é ela a lógica intrínseca do mundo e do que acima e abaixo dele existe e que me chega por eles. E eles pedem palavras e se entediam com as legendas, de tão saturados de cor e movimento e espera. E não ouvem. E por isso amam as pálpebras. E embora cerrados, devastam o mundo sem pudor ou piedade, por mim ou por todos os outros. E me torno gentil. Porque em todos vejo o medo e a desconfiança de que o mundo não seja tão bonito quanto parece. Tesouras permitem que as pessoas sejam retiradas das paisagens sem que se retirem suas bordas e seus vazios. E dos afetos, tudo o que resta, é a loucura.
O que é?
É sentir. É o que faz com que seja cada fibra de músculo, cada gota que areja e tudo o que tendo entrado pela boca, dela sairia, permitindo ser entre os que vivem. E tendo a vista embaçada pela transparência, posso ver melhor o seu rosto e noto as marcas das diversas circunstâncias em que, por desejar seu corpo, recusei seu amor. E vejo os olhos dos que foram atingidos pela flecha envenenada, a que abre o ferimento de não poder nunca mais duvidar do amor porque viu em seus braços a pequena dor, acarinhada para adormecer, protegida do tempo. Decerto seria bem educada.
O mundo é o mesmo pra todos. O conhecimento mais sofisticado sobre os homens sempre é obtido graças à observação de animais e insetos. E talvez muito se soubesse, se também observado, além de como reagem às nossas dores e misérias, o relacionamento com o demais. Medo, fome, sede ou dor não diminuem a curiosidade sobre o prazer a ser obtido na relação com o que há em volta.
Objeto de desejo
O presente esperado para os quinze anos, para as núpcias consigo mesma, porque símbolo de poder é mesmo liqüidificador. Multiprocessador é somente um artifício tecnológico. O liqüidificador é pioneiro. E com a massa do igual de tudo o que era um entre outros, junta e torna bebível o diferente. Poderoso liqüidificou meus pensamentos, meus sentimentos sólidos.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Dote
Ao homem escolhido é oferecida a recompensa de tesouro acumulado em muitas vidas. Areia no vento, nódoas que restaram do que foi doce e que ainda escorre das mãos, gatos e sua liberdade, um pouco de música, vinho, e alguns livros. E a alma. O corpo acompanha.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
A mancha
E novamente ele volta. O homem da bermuda verde e dos olhos que me atingiram enquanto evitavam o asfalto a que iriam de encontro. Ele volta com o asfalto e seus pequenos rios vermelhos. E de novo é ele, o homem, tão forte, tão submisso às vontades, tão perecível. O homem que não existe mais e ainda atrapalha o trânsito.
Transito entre os lugares e os modos de escrever e me pergunto se são os estiles ou o roçar dos dedos o que deixa marcas. Me queimo e, no calor das mãos, tudo começa. E por tanto apreciar a morfologia das coisas elas acabam por ter sentido e um como fazer. Sempre soube que fumar era burrice tão grande quanto se apaixonar, mas mesmo tendo deixado os templos, ainda restavam os ritos, as minúcias de um eu esmagado pelo tudo, que conhece o próprio peso e flutua, por ser nada. O medo do fogo é porque sempre fui água parada, lagoa em que os que amei se afogaram, ainda no raso. E a doçura de neblina com espreguiçar do sol. Mas o agora era a seca, um evaporar para, na última gota, ser mar.
domingo, 17 de maio de 2009
O grito
E, mais do que a matéria perecível, sou o meu desejo de ser além do barro de que fui feita. Peça sem assinatura, da descendência dos bastardos, dos exilados e dos apatriados. E mulher.
Vario os tipos de letras porque a escrita não varia. E a moça ainda era ela, aquela que há muito havia deixado de ser, a que, por suas próprias mãos e vontade se fez corroer pela certeza de que de novo iria acontecer. E seria pouca a fagulha para acender o sol guardado no peito e que fazia com que se lançasse liquida ao se conduzir junto à fluidez das pedras. Lenta e determinada, seguindo o girar do mundo.
Respirava com fome o mundo. Na imobilidade adivinhava parentesco com vento, reconhecida a força de fazer e desfazer marés e, da aguinha nascente, surgiam os mares que inundavam e apagavam todo o resto. Da epidemia de dengue restaram a mulher parida e o pequeno homem, insaciável. E uma tarde, também de sábado, em que adormeceram juntos, consolados pela exaustão das fomes não saciadas. Quando aqui chegaram sabiam que seriam vitimados pelos mesmos males que seus antepassados haviam trazido. Mostravam nos olhos a consciência e se nomearem em sonho a quem pudesse reconhecer o sopro em ferida, afago de deus ou de mãe. Sabiam, já, todas as coisas que lhes seriam omitidas.
Comecei pela etiqueta, com data de fabricação e sem validade. Um homem que amei sentiu desconforto tal e qual e, o meu, ia no além do aquém já que sou uma tresloucada consumista. Coisas de mulheres que gostam de ser possuídas. Sempre tropeço em poemas e depois de um tombo, dei de cara com outro numa vitrine, ao lado dos sutiãs e da maquiagem. E depois me apaixonei por outro. Ode triunfal em meus ouvidos sua voz de maciez de apaziguar concretudes e engrenagens. Minha tecnologia parou com os moinhos e o cavaleiro que me chamava por nome outro. Gosto dos homens magros e frágeis. São os mais fortes. Como o cheiro da cebola e os canalhas. Compro coisas que ficam escondidas de mim, jogadas em gavetas e armários, estragadas pelo excesso de proximidade. Bom que o coração saiba melhor que amores escolher. Procuro as agulhas de tricô e imito minha avó, à espera que alguém retorne de onde ninguém vem. E me acabo tecendo princípios.